2 de jul de 2011

Diálogos na era da comunicação

"E disse Deus: Haja luz. E houve luz." (Gen. 1;3)

Simples assim. Emissão da palavra, vontade declarada e surge a luz como resposta ao imperativo divino.

"E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme à nossa semelhança..." (Gen. 1;26)

Ao falar, Deus manifesta sua vontade e a comunica a um interlocutor, pois a segunda frase indica claramente a presença de mais Alguém ao Seu lado.

Podemos pressupor um diálogo entre duas Entidades; um tácito acordo, clareza quanto ao propósito das ações que estão sendo realizadas e plena concordância em relação à obra consumada. Um exemplo de comunicação verdadeira.

Agora vamos ao século XXI, era da comunicação, e observar os muitos usos que o homem aprendeu a fazer da palavra.

Desde talvez de antes dos tempos dos sofistas, a intenção verdadeira do ser falante vem caminhando por rotas sinuosas; esgueira-se por vielas escuras, confunde olhos treinados e ouvidos atentos, e escapa veloz com sorrisos de ironia, vestida por palavras outras, diferentes em tudo daquilo que verdadeiramente sente.

Freud muito trabalhou para decifrar a linguagem do inconsciente, também Lacan, entre outros, e antes dele, Saussir, com sua espetacular contribuição, a Linguística.

Estes cientistas estudaram o homem através da linguagem, do uso que fazemos das palavras. Do tanto que escamoteamos a verdade, consciente e inconscientemente, com farta artilharia de metáforas, embora flagrados muitas vezes pelos chamados atos falhos.

Eu aqui vou falar um pouquinho sobre diálogos e relacionamentos. Sobre nossa incrível habilidade para dar tiro no pé; falando demais ou de menos, quase sempre misturando real e imaginado, sem, todavia, transmitir claramente o significado daquilo que dizemos.

Habitualmente falamos muito, ouvimos pouco, fazemos ruídos em demasia...e desviamos do assunto. Praticamos diálogos surreais sem perceber.

A parte real de um diálogo é aquilo que efetivamente se diz. É comum o emissor/receptor adicionar uma parte imaginada e não verbalizada ao discurso do outro, tornando esta projeção consistente e significativa no desenrolar daquilo que se imagina ser um simples diálogo.

É evidente que o receptor capta o que ouve, jamais o que o emissor imaginou e acrescentou à sua fala.

Diálogo às vésperas do dia dos namorados:

A - Amor, vamos jantar fora nesta sexta-feira? (e depois comemorar no motel?)

B - Sim, meu bem, ótima ideia! (pelo menos mudamos a chatice de toda sexta-feira.)

Diálogo truncado, com um dos sub-texto revelador de animosidade. Tipo de não comunicação verbal. Resulta em reação verdadeira aos conteúdos projetados: A começando a esquentar e B de prontidão com balde de água gelada nas mãos. Congruência zero.

Segundo diálogo:

A - Querido, veja a lingerie nova que comprei! (Que tal fazer amor esta noite?)

B - É linda, meu bem! Quanto custou?

Acréscimo por distração, uma vez que a parte não verbalizada por A deixou espaço para B fazer interpretação racional "aquisição de produto novo igual a despesa extra." Congruência zero.

Partes constitutivas de um diálogo por evasão, em que a emoção (conteúdo reprimido) faz uma das partes (ou as duas) desviar do tema tratado:

Parte real - palavra articulada, mensagem verbalizada/acústica

Parte imaginada - mensagem intuída, produzida e/ou captada e incluída no discurso do outro à sua revelia.

Este modo de dialogar por evasão, com obstrução da verdade que se quer manifestar (fazer amor) por meio da ação dos conteúdos internos, leva a desentendimentos, frustrações, mágoas e ressentimentos.

A parte clara e evidente do que se diz (e que é a única efetivamente ouvida pelo receptor) transforma-se em simples retórica diante dos acréscimos invasivos não verbalizados.

Os sub-textos não verbalizados se originam nos conteúdos emocionais de uma ou de ambas as partes que falam, sendo resultado de insegurança, carência, baixa auto-estima e da sensação de sempre estar submetido à avaliação e crítica por parte dos interlocutores.

Marido assistindo à tv:

"Puxa, essa atriz tem uma cinturinha tão fina que parece mais uma boneca..."

Esposa na cozinha, em resposta à observação dele:

"Você está me chamando de gorda?"

Na sequência, diálogo dissonante:

"Eu não disse isso!!"

"Disse sim!! Eu não sou boba! Foi exatamente isso que você quiz dizer."

Ele, de fato, não disse isso. A afirmação dela é uma hipótese, uma interpretação baseada em conteúdos pessoais dela e introduzida no discurso dele. O suficiente para dar início à contenda.

O bom relacionamento, seja ele social ou amoroso, se faz através de comunicação eficaz, e esta se produz por ações pontuais positivamente significativas. Palavras assertivas são carícias efetivas. Levam a ações facilitadoras em qualquer tipo de relacionamento.

Estes verbos são alguns dos indispensáveis para a construção de pontes entre as pessoas: ouvir, acolher, relevar, colaborar, perdoar, acariciar, agregar, compreender...

Os interessados podem praticar aos poucos, com alternâncias, sem pressa mas sem preguiça.

A falência de um relacionamento quase sempre decorre de comunicação truncada e de ações desvirtuadas, as quais se fazem acompanhar de palavras hostis. Palavras venenosas só servem para isolar e para envenenar aquele que fala.

São ações fatais para um relacionamento: reclamar, criticar, ironizar, cobrar, maldizer, blasfemar ...

Reclamações, críticas e cobranças constantes dão início ao afastamento entre as pessoas e quase sempre levam ao rompimento dos laços afetivos.

Acolher carinhosamente os amigos e cortejar o parceiro sinaliza aceitação. A demonstração de bom humor e a não valorização de pequenos contratempos revelam resiliência, além de produzir ações cooperativas.

Parece-me ser esta a chave do cofre do bem viver: celebrar a vida enquanto dura a viagem.

amo-tedurmabemsimdeixa-meajudarparabénssejabemvindoamémsimabraça-mevenhajuntoteadmirosorriasimvivaavidasimsaúdesimDeusteabençoesimacalma-teficabemconfiatenhaféeuteajudobomtrabalhoboaviagembomexameeuteesperovoumasvoltosimtenhabonssonhosmeufilhoqueridomamãeolhaopresentequefizpravocêamo-tealeluiaobrigadoclaroquevaisconseguirgraçasameecuidedanaturezasim

20 de jan de 2011

"Façamos o que é bom no tempo oportuno." Eclesiastes, cap. 11 (Bíblia)

Milhões de internautas ao meu dispor e permaneço indecisa diante das inúmeras possibilidades de interação.

Milhões de informações em disponibilidade, de que eu não preciso, nem tenho tempo para todas.

Hoje é o tempo oportuno para mudanças.

Vinte e quatro horas, hoje, é o único espaço-tempo de que disponho, uma vez que passado e futuro são abstrações, apenas indicativos verbais.

Sinto-me a viver em um formigueiro e não me sentir formiga.

Sonho sonhos compartilhados com seres humanos sensíveis, confidentes, acríticos, para efetuarmos trocas emocionais e físicas, não necessariamente sensuais, entenda-se ...

Abraços, sorrisos cúmplices, mãos dadas, não apenas emprestadas. Sonhos que possam se realizar a partir de hoje, o tempo oportuno.

Por onde andará a rara figura do "amigo de infância" (mesmo aqueles que tenhamos conhecido há pouco tempo), a quem se podia mostrar fraquezas, inseguranças, não para análises pontuais, mas apenas para compartilhar nossa humanidade, e confirmar que eu e o outro, cada um do seu lado, ouvindo e falando, somos igualmente contraditórios, fortes e fracos diante da vida, porém capazes de juntar nossas diferenças em uma história chamada diversidade.

"Fala que eu te escuto" é regra psicanalítica, mas o amigo, diferentemente do terapeuta, nos pega no colo e acaricia nossa alma.

Quero mais amigos para quem eu possa falar sem articular defesas; alguém para abrir o coração com a mesma coragem que os internautas exibem em sites de relacionamento enquanto elaboram perfis fantasiosos, cheios de frufrus alegados.

(Na verdade, falo sobre a questão formiga-vai-com-as-outras, nosso mundo em que a maioria faz o que a minoria manda.

Mas quero registrar companheiros personalíssimos que partilham comigo uma gostosa oitiva, cada um expressando exatamente sua vontade e opinião, e dividindo uns com os outros as nossas adoráveis diferenças: Sucla, Tetê Petri, Dra. Nilcéia, Armanda, Snitram, Paulo Breg., Rose Cris e tantos outros mais...

A roupagem social, parece ser o necessário padrão identificador de castas em nossa sociedade, a qual espera, com certa razão, que cada um interprete seu papel (por isso a Persona é um fenômeno coletivo, não apenas individual), e isso envolve comportamento vinculado ao traje, incorporação de neologismos aos falares locais e até mesmo a suposta liberdade de escolher a qual filme assistir ou em que apedeuta votar nas eleições.

Mas não propicia a aproximação emocional nem intelectual entre as pessoas, que, hoje em dia, saem de suas escolas com mentes uniformizadas; informadas, nem sempre formadas.

Funcionamos por módulos ou patotas, seguimos tendências, marchamos ao sabor
de lideranças auto intituladas, acreditamos piamente em tudo o que se traduz como científico, seguimos os "piadores" famosos, perseguimos o sucesso a qualquer preço ...

Desempenhar os papéis que o público espera facilita os contatos ... e exacerba os efeitos negativos da persona, se não houver bom senso.

"Se você quer ser um vencedor, deve parecer-se com um vencedor." Então tá.

Pensar que Einstein mais parecia um mascate e Gandhi vivia enrolado em brancos panos encardidos...

De tanto representar papéis sociais inconsistentes acabamos engolidos pelo coletivo; nossas idiossincrasias se dissolvem, perdemos marcas peculiares que tornam cada bicho homem um ser especial.

A tecnologia que facilita a nossa vida, nos aproxima uns dos outros, mas uniformiza e pausteriza.

Mais que unidos, somos colados uns aos outros para que, massa amorfa, possamos navegar através do midiático mundo novo (Huxley).

O progresso é via de mão única; uma vez iniciado o movimento (e lá se vão milhares de anos), não há retorno.

Porém, do mesmo modo que devemos lidar com nossas íntimas forças destrutivas e construtivas, por exemplo, as forças arquetípicas, podemos aprender a lidar com as correntes indutoras do progresso.

É bem possível identificar as marés que invadem nossas mentes com pensamentos pré-configurados e receitas-padrão de bem viver.

É possível também integrar o jeito coletivo de fazer tudo igual para todos com o criativo e artesanal jeito de fazer artisticamente algo sempre especial para cada um.

Tudo bem, vamos todos tomar vitaminas e fazer exercícios, mas, principalmente, sonhar nossos próprios sonhos, consumá-los, e viver nossas vidas como indivíduos únicos.

Moramos no mesmo formigueiro-planeta, mas cada um pode pintar sua casinha de uma cor diferente ... e viver sem tanta pressa, sem ter a obrigação de parecer feliz.

12 de jan de 2011

Thanatus, a causa secreta

Medo da morte, a causa secreta.

Reflexão sobre a morte e o ato de morrer.

Na Mitologia Grega, Thanatus é o anjo da morte, irmão gêmeo de Hipnos, o sono; são filhos de Nix, a noite e de Érebro, a escuridão do mundo inferior.

Thanatus era representado como uma nuvem prateada que envolvia os mortais e lhes arrebatava a vida.

Creio que não são as pessoas tolas as que mais dizem tolices; mas sim as angustiadas, amedrontadas, diante do enfrentamento da causa secreta. Sejam aquelas que recebem notícia de um mal incurável em seu próprio organismo, sejam aquelas informadas de que um amigo ou ente querido está desta forma diagnosticado. Isso, quando falamos na véspera da morte, situação em todos estão, com maior ou menor brevidade, afinal, morrer é o paradoxal objetivo da vida.

Uma cena do filme Chico Xavier, cômica, por sinal, mostra o médium, a bordo de um avião em forte turbulência, a gritar assustado com medo de o avião cair e todos morrerem no desastre. Surge então seu guia espiritual, Emanuel, advertindo-o com certo tom enérgico na voz "Pare com essa gritaria! Se tiver que morrer, morra, mas faça-o com dignidade, sem escândalos."

Na sociedade, nosso berço cultural, a naturalidade que deveria estar investida no ato de morrer, no ritual necessário de confirmação desta transformação (vivo em morto) tem se transformado em discursos de negação da angústia (a maior de todas: a certeza inevitável da morte, da sua morte especificamente).

As pessoas parecem sussurrar (até mesmo para não se ouvirem falar a respeito de tal assunto): "Se tiver que morrer, morra, mas não precisa fazer cara de morta. De preferência, não faça barulhos, nem queixas, nem manifestações de temor. A mim já me basta conviver com meu próprio medo da morte".

Não faça incômodos a terceiros. Tente morrer com dignidade, principalmente após longos períodos de doença que obrigam família e amigos a constantes
preocupações, a perguntar pelas suas melhoras (se as houve), quando sai da UTI, se o convênio autoriza os procedimentos, submetendo os vivos a uma tensão insuportável enquanto você, o quase morto, experimenta
cuidados paliativos, que, meu Deus! para quê? já que não vão resolver nada mesmo.

Morrer tornou-se uma cruz na vida do homem moderno, tão ocupado em seu viver globalizado, em absurda fuga de sua única certeza.

Mas, vamos lá. Tente morrer com dignidade. Dê preferência aos sábados, para que o enterro aconteça no domingo e não atrapalhe a vida de quem trabalha e vai continuar a viver, apesar de você.

Ao que tudo indica e as boas maneiras pressupõem, o ideal é que se produza um rápido e asséptico funeral: um prático "fast-funeral" (não quis abreviar para "fast-fun" porque penso que seria sarcasmo sugerir que este ritual atenderia em muito seu público alvo, se, além de "fast" fôsse igualmente "fun" (uma musiquinha mais animada, salgadinhos, etc, além das flores).

Ah, meu e seu desejo de imortalidade!

Tudo o que os vivos desejam é manter "ad infinitum" seus bens, seus afetos, sua convicção narcísica de ser absolutamente indispensável.

Mas nenhuma herança é jacente, sempre haverá alguém a me substituir na posse
de tudo aquilo que eu sempre considerei definitivamente meu.

Enquanto me agito, estou vivo e o meu desejo não se acaba. Eu quero continuar a correr atrás não sei de quê apenas porque a manada disparou (sabe-se lá quando ou porquê) e pouco me importa raciocinar sobre a possibilidade de um desfiladeiro à frente; basta me sacudir e entorpecer, tomar parte da festa da "vida".

Que fuga mais tola, essa, em nome da pura negação da minha obrigação de morrer.

Diante de um caroço, do olhar meticulosamente frio e clínico, muitos de nós ousamos falar o que não devíamos, ou sofremos por ouvir da boca de alguém bem próximo: "Isso não é nada. Se adoeceu tem que tratar."

É pouco conforto para nossos ouvidos, ainda mais quando a lógica vai buscar a ironia para completar: "Se morrer, enterra-se..."

A ironia rasa serve apenas para nos defender do não enfrentamento da iminência da morte, mas igualmente como recurso para ignorar as responsabilidades de quem ainda está vivo.

Aquele que está vivo quer aproveitar tudo de bom que a vida pode lhe
oferecer, mas precisa também cumprir os deveres cabíveis: trabalhar, pagar impostos, escovar os dentes, obrar e limpar-se, pensar e refletir, amar e comprometer-se com o outro...

Enfim, existem regras, e muitas, desde o envolvimento com suas raízes (mãe, pai, família), com seu país e planeta, com seu momento histórico, seu idioma, seu gênero ... aquilo que se pode considerar determinismo pois nos submete compulsoriamente.

Já a morte, mais que assustadora, deve ser compreendida como libertadora; o Anjo Thanatus nos outorga o pleno descompromisso com quaisquer encargos, normas ou etiquetas.

Caberá sempre aos vivos providenciar recursos para o enterro, vestir preto, chorar e atender aos rituais. Ao morto cabe apenas estar presente,nada mais.

Ainda assim, apesar dos pesares (como diz a música) seria muito agradável ficar mais um pouco, pelo amor dos que amamos e daqueles que realmente nos amam; pelas manhãs cheias de neblina, chocolate quente, pelas risadas compartilhadas, pôr do sol ao som de Ravel, caminhadas com pés descalços, beijocas roubadas, vitórias comemoradas, derrotas vividas e consoladas nos braços daqueles que nos respeitam e querem bem...

Mas quero mesmo falar do fato - a morte. Que nada exige, a nada obriga e não marca encontro (exceções à parte). Não nos consulta, não pede autorização para chegar e é das poucas coisas efetivamente democráticas que se conhecem.

Ao invés de sofrer o medo de atravessar a ponte, alinhavar discursos desconexos ou desesperados, acredito que, melhor é focar na outra margem da vida... pois parece que por lá o gramado é também verde e o pôr do sol maravilhoso.

4 de jan de 2011

Conflitos Recorrentes entre Mãe e Filha

A Grande Mãe Demeter, conflitos recorrentes entre mães e filhas.




Problemas com sua filha?

Sua mãe não entende você?

"Ninguém jamais se separa inteiramente da mãe." Barbara Black Koltuv, Ph.D.


Aprenda a lidar com este conflito através do mito da deusa mãe Demeter e de sua filha Perséfone. Compreenda os movimentos feitos para a conquista da individualidade, sabedoria e realização.

Primeira coisa  para compreender a relação arquetípica entre mãe e filha; observar símbolos e mitos. A belíssima história de Demeter e Perséfone.


O relacionamento entre mães e filhas decorre de um entrelaçamento visceral, extra modum (além da medida), um movimento sem princípio nem fim, bem representado pelo 8 deitado, ou símbolo do infinito. Vale pontuar a conexão fisiológica entre ambas representada pela placenta e pelo cordão umbilical.


Isso porque das barrigas das mães saem as meninas, de cujas barrigas sairão as suas meninas... (falar de meninos agora é fora do nosso tema).


Qualquer coisa para se analisar em uma criança, deve-se olhar necessariamente para a mãe. Pois que uma parte dela está incrustrada na filha, não apenas como herança filogenética, traços, cor de olhos, timbre de voz etc.. Mas uma parte de sua alma e nesta parte, fagulhas de seu poder.

Trata-se de uma capacidade inata, ontogenética, própria do ser.


Esta fagulha permite que a filha, ao dar a luz, saiba exatamente como tocar, segurar, proteger e falar ao seu bebê. Fará exatamente como sua mãe fez, e antes dela, sua avó. Aplicará este conhecimento instintualmente e o desenvolverá como seu.


Algumas jovens mães, intuidas do poder contido na aplicação desta mágica receita da vovó, da qual intuitivamente se apropriam, alardeiam obter seus conhecimentos em modernos livros de pediatria e psicopedagogia. Negam o óbvio como defesa diante dos poderes da avó, na verdade, a Grande Mãe Demeter.


Demeter é também Gaia, a Mãe Terra, ventre simbólico de onde tudo provém; água, plantas, alimentos ... e para onde tudo retorna. Demeter é, desta forma, deusa da Vida e da Morte.


No mundo fático observamos a natureza, em modo contínuo, alternar a vida e a morte. Pulsão de vida x pulsão de morte ... a energia é a mesma. A função é diferente. É preciso morte para que haja vida. O mito da Fenix ... mais um arquétipo a nos visitar.


Para se comer bife, é preciso matar a vaca. Para se comer o pão é preciso matar o trigo. Para eu viver é preciso que algo morra, ou se transforme.


Para uma nova Mãe existir, é preciso que a mãe anterior morra (ou se transforme em avó.)


Muitas avós moderninhas, eternas adolescentes, desequilibram-se como indivíduos, pois alteram o trânsito natural da existência: nascer, crescer, amadurecer, multiplicar, envelhecer e morrer. Contradizer este ritmo é, no mínimo, tolice.


Em uma relação mãe/filha (onde não existe a figura do neto) temos duas protagonistas para uma mesma história, duas psiques envolvidas no processo de vir-a-ser, o processo de individuação (C.G.Jung). Duas personas distintas, duas sombras em ação, dois animus voluntariosos, e dois >selves, a totalidade essencial da psique.


Esta egrégora arquetípica é mais que suficiente para causar a dessintonia e os conflitos habituais observados entre mães e filhas. Arquétipos são forças incontroláveis, poderosas, que manifestam sentimentos e necessidades primitivas de existir e de se consumir, como um relâmpago em busca dos mistérios subterrâneos da terra.


São, no mínimo, quatro deusas (Selene, Ártemis, Hécate e Lilith) a dançar ao redor de um mesmo caldeirão, mas cada qual a preparar a sua poção de feiticeira.

Ocorre que, de fato, embora se enfrentem como duas rainhas, mãe e filha estão submetidas a uma hierarquia natural e obrigatória; uma é mais velha e mais sábia que a outra. Temos uma rainha e uma princesa (Demeter e Perséfone) a se enfrentarem e todos sabemos que na natureza não podem existir duas rainhas em uma mesma colméia.

Aqui reside o impasse que clama por transformação e morte simbólica.

Curiosamente,  se a mais forte (Demeter) reverenciar a mais fraca será obtido um armistício em nome da sabedoria.

Se a princesa Perséfone reconhecer e acolher o poder da Rainha mãe, será ela mesma transformada em rainha (terá seu próprio reino para dominar, o Hades) e não terá porque cobiçar o território materno. Será obtido o armistício em nome da prudência, o que igualmente significa sabedoria. Neste instante Perséfone se transformará em rainha, sem que seja necessário destronar a Rainha Mãe. Assim se inicia a resolução do conflito.

Como se vê, embora antagonistas, até mesmo adversárias, Demeter e Perséfone não são inimigas; ambas precisam lidar com  ambiguidade e  ambivalência (amor e ódio). Cada uma significa um dos círculos que formam o 8 deitado (infinito). Estão vinculadas ad infinitum.

São duas mulheres  eternamente em busca de harmonia, sabedoria e realização. De preferência, cada uma a cozinhar no seu próprio caldeirão; sem abrir mão de sua  individualidade.

Simples, não é?