11 de jul de 2010

Casamento: a história de Elisabete, a rainha do lar

Ela entra no quarto trazendo a xícara de café, percebe que ele está dormindo e fica por alguns segundos a admirar este seu homem moreno e cabeludo. O movimento do tórax largo e bronzeado mostra a respiração tranquila e os músculos, mesmo relaxados, denunciam a força de um corpo saudável, cuidado com boa alimentação e exercícios físicos que ele não dispensa.

Ela muito se orgulha dele, da sua inteligência aguda, da sua capacidade de discernimento, seu poder de expressar-se com rara propriedade. Ela reconhece nele todas as qualidades que não encontra em si mesma. Juntos formam um doze: ele vale dez pontos, farto de adjetivos, todos analisados cuidadosamente por ela. Como ela ama seu homem moreno, tão belo e tão seu!

Na quinta-feira, depois que ele sai, vestindo terno impecável, Elisabete prepara-se para ir às compras. Ajeita os óculos sobre o nariz pequeno, calça confortável tênis e veste a velha calça jeans que tão bem disfarça a largura de seus fartos quadris. Prende os cabelos com presilhas plásticas, apanha a lista de compras e parte satisfeita para o supermercado.

Hoje é dia de comprar queijos, salgadinhos e cerveja para o programa de fim de semana, quando devem receber alguns amigos para jogar buraco. Raramente saem para ir ao cinema, mas, o que fazer dependerá exclusivamente da vontade dela. O que ela preferir, ele fará com o maior prazer, porque a ama e a sexta-feira é toda dela. Elisabete considera se uma mulher de sorte.

Ela sente-se muito feliz em razão do carinho que ele lhe dedica e dos mimos que lhe faz. Por outro lado, ela se assume como viga mestra da casa, tomando ao colo seu menininho sempre que algo sério o aborrece no trabalho ou algum outro tipo de problema lhe acontece ou quando a insônia o molesta ou ainda quando, durante o jogo de futebol, um adversário tranqueira lhe chuta as canelas.

Tomam café juntos todas as manhãs, aproveitando para discorrer sobre amenidades: um ou outro tópico da atualidade, uma ou outra fofoca sobre celebridades ... O bastante para que ela reconheça o quanto ele é bem informado e sabe transmitir lhe com clara visão uma síntese do panorama político e cultural do país.

Ela se tem por mulher de firmes convicções, já leu alguma coisa sobre o direito de acesso à informação por parte das mulheres. Tanto que, na próxima eleição vai votar em uma mulher, qualquer uma delas.

Entende um pouco de planejamento familiar, assim como o Papa ela é contra os métodos anticoncepcionais não naturais e inteiramente a favor da moral cristã. É contra o aborto, o divórcio, a pílula, os preservativos e os gays.

Acredita que hoje em dia as mulheres estão se desvalorizando demais, aproveitando sua liberdade para dar pra qualquer um.

Terminadas as compras no supermercado aporta seu carrinho em frente ao caixa e saca com rapidez e habilidade o seu talão de cheques.

Após escrever por extenso a cifra total, apõe com prazer sua bem desenhada assinatura na linha inferior. Anota o valor no canhoto mas não faz a dedução.

Do seu talão de conta conjunta não consta o saldo atual porque é ele quem controla a movimentação; a ela cabe apenas gastar.

O que mais uma vez demonstra o cuidado dele para com ela. Cálculos, ele os faz. Cuidar do lar já dá a ela tanto com que pensar que seria abuso da parte dele acumular sua mulherzinha com desnecessárias tarefas.

Ele sempre pensa nela em se tratando de dividir responsabilidades. Elisabete curte horrores o barato de ser bem casada e dar sempre para um homem só!

Sai do supermercado e retorna ao seu castelo doméstico sem maiores preocupações.

Aos sábados ela acompanha seu ídolo ao campo de futebol, onde irá exibir a perícia de grande jogador, surpreendendo com sua velocidade e presteza nos arremates, matando a bola no peito, disparando fortes tiros, marcando gols.

Se acontecer dele ser expulso de campo por algum juiz ladrão, Elisabete erguerá o queixo contrariada, despejando palavras rudes de defesa convicta a favor de seu atleta injustiçado.

Porém, ela prefere ao esporte das manhãs de sábado os saraus musicais das tardes de domingo, quando, ao invés da bola, seu ídolo versátil encanta mais uma vez e surpreende a todos ao tocar cintilante bateria.

Elisabete senta se confortavelmente ao lado de seu copo de refrigerante e entrega se ao mister de admirar extasiada seu homem moreno a enfrentar com maestria os címbalos e os taróis.

Seus íntimos sonhos, produtos inconscientes da distante adolescência, manifestam se impetuosamente e ela reencontra o príncipe encantado: alto, charmoso e elegante, catalizador das mais ricas qualidades que só os jogadores profissionais de futebol nos anúncios de produtos esportivos são capazes de destacar.

Ela suspira diante do astro resplandencente. Como a lua diante do sol ela mesma se ilumina e enriquece, num misterioso ato de pura alquimia.

Neste sublime instante pontuado pelo hierosgamos (o casamento sagrado), enquanto ele vibra os metais e fere os tambores vigorosamente, ela enfim compreende que o Dr. Eic Berne está certíssimo quando diz: você está OK, eu estou OK!

Elisabete sente se próxima ao nirvana. Porém, percebdendo que outras mulheres da platéia também se excitam diante do talentoso músico, passa a agitar sua mão esquerda para que todas compreendam, vendo o faiscante brilho de sua aliança, que ela é a única dona do belo astro, fonte dos seus prazeres e da sua realização.

Outros dias passam como um trenzinho que passa. Puííí ... piuííí ...

A vida segue e Elisabete viaja na vida sem sair do seu lar, protegida e amada pelo seu homem forte. Raras mulheres são felizes como ela, plenamente satisfeita em todas as suas necessidades, guardada dos perigos de um mundo de trabalhos exaustivos, de sofismas e de enigmas atordoantes.

Para que escalar montanhas se Elisabete já há muito jogou fora a bandeira que poderia fincar no topo?

Tudo o que lhe importa é sentir se amada e protegida. Para sempre.

O trenzinho segue sem parar, apitando: Piuííí ... piuííí ...

Nele seguem Elisabete e seu homem forte rumo a um futuro desconhecido e imprevisível. Mas, para ela, o importante é o agora, onde ela desfila contente, com manto e coroa, de braço dado com o seu namorado.

Piuííí...??

***


Esta história pode ser considerada um conto de fadas, e, como tal, cheia de alegorias, mas exatamente por isso, existir no imaginário de muitas mulheres ativas e inteligentes.

6 de jul de 2010

Casamento: opção, condição ou ilusão?

Algumas mulheres desejam casar se, outras não. Porém, vestidos de noiva, buquês, igreja e alianças fazem parte do imaginário feminino.

Algumas delas ingressam na nave matrimonial inebriadas por fantasias primordiais e acabam enredadas nas supostas regras de bom comportamento para esposas, concubinas e afins; regras que, mesmo sem que as mulheres percebam, são introjetadas, atuando no espaço familiar, onde o triângulo básico: marido, esposa e, quase sempre, filho, irá atuar conforme o tom de inevitabilidade determinado pelos mitos. Para equilibrar ou, definitivamente, desestabilizar a dinâmica, poderá surgir a força complementar do quadrado: o amante.

O que você estaria disposta a fazer para manter e/ou salvar seu casamento?

Aqui não vamos entrar em detalhes sobre o que se entende por casamento, tal a flexibilidade da relação matrimonial nos dias de hoje e também pelo alto nível das exceções contratuais nela consideradas.

O que você vai ler são pequenos contos alegóricos sobre algumas mulheres casadas, comprometidas, cada qual de uma forma singular, com seu projeto matrimonial, o que não significa exatamente aí incluir a consulta da contraparte igualmente interessada (o marido) sobre os desejos e expectativas dele quanto à vida matrimonial de ambos.

Leia e faça sua reflexão. São pequenas histórias bem humoradas.

1 de jul de 2010

Pânico 6 - Viagem ao centro de si mesmo

O ressentimento pelo abandono afetivo, real ou simbólico, é uma das causas da ferida que o fóbico, na sua construção imaginária de não ser "bom o suficiente" para merecer os suprimentos afetivos essenciais e por, equivocadamente, buscar conquistá-los através do perfeccionismo e da auto-exigência, negando seus instintos e afastando-se de si mesmo, acaba por não permitir que seja curada, mas antes, permite que ressurja na desrealização do evento do pânico.

Não é o mundo lá fora que assusta, mas o mundo aqui dentro, fragmentado e desconectado do ser interior; a falta de domínio sobre si mesmo e a desconsideração da capacidade da mente para enfrentar as aflições da vida através de um diálogo interior significativo, baseado em raciocínio e intuição, este sim capaz de orientar para a compreensão e administração do mundo "lá fora", e principalmente para o reconhecimento e a identificação de si mesmo.

Pã, tão feio, primitivo e instintual, rejeitado com horror pela sua mãe, a ninfa Dríope, reaparece para assustar aqueles que têm medo de si mesmos porque reprimem a vida instintual e perdem o contato essencial com seu centro.

Para se viver uma vida plena torna-se necessário saber realmente quem se é; descobrir seu centro e retornar para ele. Trata-se de um processo: identificar, confrontar, re-significar e integrar.

Viagem ao centro de si mesmo: recuperando o contato perdido.

A partir de agora descrevo algumas ações que podem ser conscientemente dirigidas para se entender e controlar as crises de pânico. Antes, visite neste blog: Mandala, o círculo mágico.

1. A Mandala

Mandalas são símbolos que brotam do interior da mente.

"Jung, pela experiência pessoal e pelo seu trabalho junto aos pacientes, observou o mesmo motivo de mandalas surgindo espontaneamente quando a psique estava em processo de reintegração em seguida a momentos de desequilíbrio. (...) Jung viu que em seus pacientes esquizofrênicos, 'os símbolos de mandalas aparecem com frequência em momentos de desorientação psíquica, como fatores compensadores da ordem.' ( ...) Concluiu ele que a mandala é um arquétipo da ordem, da integração e da plenitude psíquica, surgindo como esforço natural de autocura."
(Moacanin, Radmila. A Psicologia de Jung e o Budismo Tibetano. Ed. Cultrix/Pensamento, 1986)

O evento fóbico é um movimento de dispersão da mente, um momento de desorientação, conforme lemos acima, e que carece de reorganização das energias psíquicas.

Ao desenhar mandalas, conscientemente orientadas, é possível produzir resultados como: reencontro com o centro nuclear (eutimia), (re)equilíbrio emocional, fortalecimento da mente através do autoconhecimento (identificação dos seus pontos vulneráveis, complexos, etc), abrandamento dos eventos fóbicos e até mesmo a desejada dissolução da fobia.

Finalidade de desenhar mandalas conscientemente orientadas: produzir alterações benéficas na mente e no comportamento, experimentar sentimentos e emoções de qualidade superior.

As mandalas se originam no inconsciente coletivo e por isso mesmo quando desenhamos mandalas conscientemente orientadas remetemos à sua fonte originária padrões de ajustamento, organização, transformação, interação e integração, entre outros.

1º Passo: desenhar uma mandala espontânea.

Material: papel sulfite, lápis preto e lápis de cor.

Procure uma ambiente calmo onde possa ficar sozinho para fazer o exercício.

Respire fundo, solte o ar devagar. Relaxe. Repita 3 vezes.

Desenhe um círculo a lápis sobre papel sulfite.

Dentro deste círculo desenhe livremente o que lhe vier à cabeça. Use lápis preto ou lápis de cor para desenhar, à sua escolha.

Deixe se guiar pela intuição; você pode escolher desenhar apenas dentro do círculo ou extrapolar as margens, etc. Este é o seu desenho, faça como sentir que deve fazer.

Ao terminar, respire novamente.

Sinta se deseja acrescentar alguma coisa. Mas não apague nem faça qualquer correção.

Admire seu desenho: ele é a manifestação visível de uma verdade invisível.
(A seguir, próximo passo.)

28 de mai de 2010

Pânico 5 - Segunda Reflexão

Analise com franqueza a sua relação pessoal com as fobias e considere a dinâmica entre você, seus sintomas e as pessoas de seu convívio pessoal.

Você deseja realmente superar estas fobias?

Você as utiliza para seduzir, manipular e chantagear pessoas, e até mesmo para realizar pequenas ou grandes vinganças?

Suas respostas:

NÃO. Eu não desejo verdadeiramente livrar-me de meus sintomas. Gosto deles, estou acostumado, quase adaptado aos surtos freqüentes.

Eu admito sinceramente fazer uso e abuso desta minha neurose favorita e, “ por favor, vamos deixar tudo como está. Resolvi ler este texto apenas por curiosidade, afinal, leio TUDO sobre a síndrome do pânico...”

SIM. Eu desejo verdadeiramente retomar minha vida em plenitude, obter equilíbrio e autoconfiança.


Se você respondeu sim, começo desde agora a compartilhar com você os procedimentos que utilizei e que ainda utilizo, em raras, porém necessárias vezes, para lidar com o pânico e com outras fobias, até ao ponto em que definitivamente neutralizei o mecanismo do medo irracional, assumindo total responsabilidade pela minha vida.

Aprendi que somente a prática perfeita leva à perfeição. Comecei a exercitar a mente como se fosse simplesmente um músculo. Algo assim próximo ao que a neurociência chama de neuróbia (ginástica para o cérebro: cérebro ágil e saudável = mente ágil e saudável). A prática a que me refiro, entretanto, relaciona-se com a qualidade dos pensamentos, trata de intenção e ação conscientes de selecionar a qualidade do que você pensa e pensar corretamente, de acordo com seu propósito e arbítrio.

Este é um exercício em que parte do ego observa e a outra parte experimenta. Logo a resistência tende adiminuir e você será capaz de estabelecer uma medida correta (eutimia), ou, pode mesmo considerar como breaking even point.

O exercício é composto de duas ações principais:

1) escolha ter pensamentos felizes; (pensamento feliz é aquele que te faz sentir pleno, saudável, cheio de amor.)

2) pratique conscientemente pensamentos saudáveis; virtuosos, alegres, orientados para a esperança e o otimismo.

Como qualquer outro exercício, este também exige força de vontade, disciplina e dedicação.

Simultaneamente, você deverá vigiar a qualidade do que pensa e a qualidade do que diz; mensagens bruxas e demais pragas podem pôr tudo a perder.

Para garantir bons resultdos recomendo a abstenção de lamúrias, críticas e maledicências. Pense positivo, sinta e emocione-se construtivamente.

Use estas três ações conjuntamente para produzir energia suficiente para transformar sua vida para melhor. Não se esqueça, só você tem esse poder. Use-o.

Após algum tempo de prática saudável e vigilância responsável, você terá formado um bom hábito e gozará de melhor saúde física e mental. Mas, ao invés de músculos poderosos, terá obtido mente sadia (e mais fértil), self luminoso e ser interior em conexão.

Este novo padrão vai lhe permitir esquivar-se conscientemente de idéias intrusas e da recorrência das mensagens bruxas; a comprometer-se com você mesmo e a assumir o comando de sua mente, pois que a mente do fóbico, como uma nau à deriva, anseia em aportar, mas descrê da possibilidade de conter-se a si mesma e de conduzir-se rumo às escolhas adequadas. Você descobrirá como voltar-se para si mesmo com afeto, dedicação, interesse e com a aceitação dos seus limites e falibilidade.

20 de mai de 2010

Pânico 4 - a reflexão necessária

Reflita sobre seus sentimentos e suas emoções em relação às fobias que tem.

Lembre-se:

Sentimento é ato ou efeito de sentir; aptidão para sentir; percepção.

Emoção é abalo moral, perturbação.



(Por exemplo: você costuma sentir tristeza e isso pode fazê-lo sentir raiva de si mesmo. Tristeza é um sentimento, raiva é uma emoção.)

Pensamento e emoção são percepções que decorrem da mobilidade mental das pessoas. O cérebro jamais para de trabalhar e se manifesta através do pensamento; a função do cérebro é pensar, refletir, calcular, imaginar...

Você pode escolher entre dois tipos de pensamentos:

pensamentos construtivos e pensamentos destrutivos.

Vale lembrar que:

Quando você pensa, você sente.

Quando você sente você reage.

Quando pensa, você produz resultados como alegria, saudade, fé, simpatia, ânimo, prazer, esperança, solidariedade, amor, ternura, gratidão, altruísmo, antipatia, solidão, desencanto, ciúme, raiva, desprazer, ressentimento, inveja, desgosto ...

O único poder de controle que você possui é o de controlar seus próprios pensamentos. Você pensa o que quiser, do modo que desejar, e ninguém pode impedi-lo.

Você é a única pessoa a ter o mais absoluto controle sobre os seus pensamentos.

Pensar corretamente é uma habilidade que pode ser adquirida através da vontade e da prática constante. Portanto, use sua mente para manifestar a sua vontade de pensar construtivamente. Pensar adequadamente é algo assim como substituir pensamentos em preto e branco por pensamentos coloridos.

Lembre se de que pensamento alegres produzem como resultado alegria, ânimo e esperança. Pensamentos tristes produzem desânimo, mágoa e tristeza.

Temos então a seguinte proposição:

Pensamento construtivo = emoção boa = vida emocional equilibrada

Pensamento destrutivo = emoção ruim = vida emocional em desequilíbrio

Por analogia:

Fobias são resultado de emoções em desequilíbrio e são produzidas inicialmente por pensamentos destrutivos. Por exemplo, se você pensa sinceramente que não é capaz de dar conta de viver sua vida com plenitude, pode ter a certeza de que não será.


As imagens e os pensamentos que vão habitar a nossa mente são criados por nós mesmos. Tanto as imagens quanto os pensamentos têm uma função; devem ter mobilidade para ir a algum lugar dentro de nós e para produzir resultados dentro e fora de nós.

A energia que faz com que nossos pensamentos e as imagens que criamos mentalmente produzam efeito chama-se desejo, e este desejo provem do nosso sentir. O sentimento é a simples percepção de um pensamento; já a emoção é o resultado produzido pela imagem ou pensamento percebidos.

Posso pensar que alguém não gosta de mim (constatação subjetiva que poderá ser verdadeira ou falsa), sentir desagrado por isso e reagir com antipatia.

Todos nós nos conduzimos pelas percepções subjetivas do campo externo, o que propicia uma larga margem de informações distorcidas, elaboradas em nosso imaginário. Afinal, se eu acredito que uma certa percepção é verdadeira, penso que é verdadeira e reajo coerentemente com meu pensamento, não necessariamente correspondo com a realidade.

Bons ou maus sentimentos, boas ou más emoções são resultado de nossos pensamentos, da forma saudável ou doentia com que alimentamos o nosso imaginário e construímos a nossa realidade. É recomendável ter atenção com os cuidados dispensados à mente consciente, uma vez que ela é a porta de entrada para muitos dos danos causado ao inconsciente, porque este, mal cuidado e mal abastecido com imagens e pensamentos enfermiços, poderá produzir abalos no corpo físico na forma de doenças orgânicas e emocionais.

Construa sua casa com bons tijolos e a sua mente com bons pensamentos.

Pânico 3 - Você deseja realmente superar sua fobia?

Muito bem. Eu e você sabemos as dores verdadeiras e insuportáveis de um fóbico. Quantos e que complexos rituais são elaborados na ânsia de controlar os atos da vida e principalmente de tentar impedir, através da evitação, a repetição dos assustadores eventos de pânico.

Se o primeiro episódio aconteceu em um shopping, evito voltar lá. Assim, começo a me defender, evitando os lugares que considero bichados, e transfiro para o mundo exterior a ameaça que existe dentro de mim.


A dinâmica familiar se altera consideravelmente. Não apenas você não viaja mais. Os familiares mais próximos, cônjuge e filhos especialmente, também passam solidária e compulsoriamente a sofrer com suas restrições auto impostas.

Vale notar que alguns fóbicos aprendem a utilizar suas fobias como uma extremamente útil ferramenta de manipulação. Eles fazem alegações pretensamente embasadas, mas que na verdade repousam escoradas em seu viés nosológico.

Pode ocorrer, algumas vezes, que o fóbico admita querer viver uma vida normal, que busque tratamento e terapia para conseguir superar as fobias, mas que também delas faça uso como justificativas oportunas.

Alguns aprendem a manipular sua neurose com vistas a obter ganhos vicinais, produzindo um discurso em que o transtorno extrapola os aspectos patológicos para surgir como manifestação de um narcisismo primário.

‘Gostaria muito de fazer esta viagem de navio, mas não posso. Tenho pânico, sabe? ... (Preciso de cuidados especiais, dê-me sua atenção, faça a minha vontade).'


Partindo destas considerações, se você é alguém que tem experimentado o transtorno do pânico e deseja pôr um fim nas restrições e no sofrimento que ele produz em sua vida, cabe aqui a pergunta:


Você deseja realmente superar suas fobias?

Pânico 2 - palavras de um neurótico bem humorado

Nesta época atendi a todas as prescrições médicas, como você, leitor, caso tenha vivido essa experiência, deve também ter atendido.

O caso é que os eventos do transtorno do pânico voltaram a ocorrer repetidamente, fazendo da minha vida um inferno ... e este não preciso descrever porque aquele que sofre de fobias sabe perfeitamente a dor que sente e a que mudanças drásticas se submete a partir da ocorrência do primeiro transtorno, no intento de controlar eventos recorrentes.

Inúmeras restrições são incorporadas à sua rotina. Na verdade, as exceções viram rotina.

Lugares a que se deixa de ir, por serem muito abertos ou muito fechados: cinemas, teatros, parques, praças públicas, estacionamentos...

Nada de túneis, elevadores ou escadarias . Ficar sozinho, nem pensar. É preciso ter alguém sempre por perto para o caso de precisar de ajuda. Com a intenção de se sentir resguardado, o fóbico elege um amigo ou parente para seu acompanhante nas saídas impreteríveis, passando a manipular a dinâmica familiar por meio de suas necessidades (?) especiais, submetendo os mais próximos a uma incorporação mimética dos seus comportamentos extravagantes.

As construções do imaginário fluem aos borbotões e os temores mais esdrúxulos pipocam por todo lado: medo da mínima possibilidade de ser mortalmente infectado por vírus e bactérias, de vir a ser picado por ofídios e insetos peçonhentos, de ser atacado e mordido por algum cão ou até mesmo de ser atacado por um leão em pleno centro da cidade.

Medo da remota possibilidade de ser seqüestrado e, pior, medo de ter algum ente querido envolvido em alguma tragédia. Medo, medo, medo. O fóbico é, antes de tudo, um ser humano vulnerável até a medula, incapaz de pensar e de sentir construtivamente. Ao seu redor, tudo parece incerto e perigoso.

Chuvas, raios, temporais, ciclones e tsunamis passam a justificar a evitação de viagens de férias em praias, no campo, nas montanhas.Também parecerá prudente evitar viagens de trem, navio, avião, ônibus, carro ou bicicleta. Festas e reuniões, depende de onde e de quantas e quais pessoas vão estar lá. Ficar próximo à porta, nesses casos, é de bom alvitre. Nada mais adequado ao fóbico do que uma boa rota de fuga. Na hora em que quiser ir embora (escapar?) já estará com um pé na estrada ....

Você tem medo de quê?

Depoimento: Ano 1980; dona de casa, 32 anos, casada, dois filhos.

“Vivi a primeira experiência com o medo repentino, ainda não conhecido como transtorno do pânico, quando fazia compras em um supermercado perto de casa.

Um terror repentino. O mais absoluto pavor se apossou de minha mente e fui arrastada por forças desconhecidas para um espaço escuro, gélido, sem contornos. Precipitei-me no vazio, sentindo algo parecido com o torpor de um desmaio, mas, curiosamente, sem perder a consciência.

Tive por certo que estava morrendo. Senti- me prestes a desaparecer, a experimentar a total dissolução da minha individualidade. Mesmo assim, assaltada pelo medo intenso, fui capaz de observar o mergulho vertiginoso do meu corpo lançado com fúria nos trilhos de uma montanha-russa virtual.

Simultaneamente, eu era o sujeito e o observador desta experiência. Eu me percebi como alguém lutando pela posse de sua razão, mas esse alguém não mais era eu. Não me reconhecia como lúcida, apesar de poder descrever com precisão, como faço agora, os eventos fantásticos que ocorriam no meu corpo e na minha mente. O medo estava dentro e fora de mim, eu sabia, mas não sabia mais quem eu era e porque sentia um medo assim avassalador.

Desespero existencial: sentir a angústia da falta de pertença, nenhum vínculo com o mundo, sequer consigo mesma; perder os contornos, tornar-se matéria difusa ... ameaçada por um poderoso inimigo oculto e aprisionada dentro da própria mente. Empreender a fuga é o primeiro comando do instinto, ineficaz, porém.


Ser nada, absolutamente nada. Aí está a maior angústia e o maior assombro: permanece a mente como observadora de si mesma enquanto paradoxalmente o corpo se desfaz e a consciência se esvai.

Como em um sonho, o ego onírico surge como única testemunha da experiência de alguém perdido nos meandros do pânico.

‘Sinto que vou morrer (escrevi em meu diário, logo após os primeiros eventos de pânico). Sinto até mesmo que morro, durante aqueles minutos eternos. Ainda assim, a dor maior não é morrer, mas testemunhar a própria morte e ali ficar, eu mesma abraçada ao meu corpo exânime, a sofrer o absurdo de uma experiência quase extra- sensorial, vivida até a última fagulha das forças’.


A sensação mais constante é a de sufocação, enquanto se cai vertiginosa e infinitamente, escorrendo não sei por onde, em direção à boca escancarada de um buraco negro sugador.


Os eventos tornaram-se constantes. Eu era então levada para o pronto socorro mais próximo e após alguns exames, prontamente liberada. Nada grave: estresse, provavelmente. Nada conclusivo também. Os sintomas, ainda que vigorosos, rapidamente se dissipavam. Nenhum dano físico ou orgânico.

Restava sempre a humilhação de voltar para casa após mais um fricote. Eu me tornara a esquisita, a doida."

14 de mai de 2010

Análise de caso real

O homem vem debruçando-se ao longo do tempo sobre o mundo dos fenômenos, em busca de significados apropriados, de interpretações acuradas, tanto quanto tem se exaurido na produção de significantes que possibilitem construir explicações ontológicas para o universo, este sim, sempre atual, atuante e efetivamente mais rápido e eficaz que a mente humana, na elaboração de efeitos psico-físicos, que talvez mais não sejam que um reflexo de si mesmo.


O mundo fenomenológico parece estar aí simplesmente porque está aí; sem finalidade, sem razão de ser, sem objetivo específico, embora permita uma observação continuada por parte do homem, este fenômeno auto-nomeado observador, possuidor talvez de um espírito auto-consciente, possivelmente um observador continuamente observado.

Quando a velocidade da luz é já ultrapassada dentro de um acelerador de partículas, continuamos a submeter a consciência humana a recorrentes considerações: haverá um movimento linear chamado tempo, um fluxo contínuo de energia chamado pensamento, uma dicotomia entre um saber interno (consciente e inconsciente) e um saber externo, uma metapsicologia que explique a palavra, esse evento psicofísico ao mesmo tempo maravilhoso e corriqueiro? Uma topografia que configure o fenômeno chamado universo? Talvez Alice se perguntasse: Há quanto tempo estou aqui? Onde é aqui?

Alguns deficientes auditivos não falam porque não ouvem; não há como repetir o modelo acústico. E eu, penso porque falo? Ou falo porque penso? Pergunto-me se é possível experimentar o saber em uma sociedade que impõe práticas sistemáticas para a aquisição de conhecimentos. A quebra de paradigmas deverá obedecer a uma metodologia? Poderei eu mesma analisar as configurações de minha consciência? Os conteúdos de meu inconsciente?

Na verdade, fascinante é fazer perguntas. Respostas são acidentes de percurso, possibilidades variáveis, versões ptolomaicas passíveis de alterações...



“A Garota Saraiva”
(Análise de Caso)


A personagem faz interpretações por si mesma ao longo da história e exibe sintomas que indicam deslocamentos, de modo a impedir o transbordamento da energia que busca irromper imperiosamente como resultado de constantes frustrações.

Seu organismo encontra-se recortado pelo psiquismo; manifesta fobias, angústias e dores físicas e emocionais.

O sofrimento psíquico aflora no organismo através de uma terceira instância, possivelmente chamada psicossomática. Os mecanismos bioquímicos acionados são postos a serviço do psiquismo, e nesta contramão, o inconsciente assume a gestão do pequeno feudo da consciência, com danos constantes à saúde do organismo.

O corpo, porque deprime, modifica o trânsito das funções biológicas e as pulsões assumem-lhe o ser, ignorando o domínio fisiológico do organismo e submergindo-o compulsoriamente.

O ego retira-se para a profundeza abissal, arcaica, diante da explosão dos afetos; a persona infantil se apossa da cena e "descreve" livremente a "sua" realidade, conforme sinopse produzida pelo imaginário.

Ela tenta baixar o nível alto de ansiedade cantando repetidamente canções infantis, à guisa de mantras capazes de afugentar seus fantasmas e de restabelecer o equilíbrio das funções orgânicas e emocionais.

Quando os afetos vêm à tona, o consciente acende o sinal de alerta e ela volta-se reiteradamente para a racionalização como mecanismo de defesa, o que faz o tempo todo no curso da história.

Suas falas trazem imbuída uma pergunta não manifesta, mas onipresente: onde fica a saída?

Percebe-se também que ela reprime um discurso aprisionado, castração oriunda talvez não apenas da energia sexual estanque, mas de um ímpeto criativo que deseja manifestar-se em plenitude através de trocas regulares de afeto, o que não ocorre em um único momento na história.

Ela exibe uma solidão compartilhada apenas com suas reminiscências - os outros personagens interagem entre si, mas nunca com ela, com exceção do pai, o interlocutor objeto de seu amor mas também de raiva deslocada e não expressada (reprimida).


Não há alívio para a dor do alegado abandono; sentida, ressentida e cristalizada por força da fala da figura materna através de mensagens bruxas.

A imagem da mãe aparece como fonte difusa de amor e de acolhimento, mas à pessoa real correspondem alheamento e indiferença, percebidos e vivenciados pela garota através das experiências descritas.

O sentimento de inveja e ciúme é direcionado para a estreita relação do irmão com a mãe , não propriamente para estas pessoas.

Sente inveja do vínculo que eles, supostamente, tão satisfatoriamente experimentam e do qual sentiu-se sempre excluída; vínculo que tenta justificar racionalmente como defesa e recusa em admitir ambivalência (amor e ódio, e também culpa, remorso, talvez mesmo um certo prazer oriundo de "tanta dor") ; a morte do primeiro irmão, ainda bebê e o posterior nascimento do caçula.

Ao longo da história, ela manifesta reiteradamente a sua inadequação ao meio familiar, o peso da culpa imposta , não justificada, porém assumida como procedente; uma última tentativa de obter significado na dinâmica da instituição parental.

Ela se mostra perceptiva das ações e reações de cada um no espaço familiar. Apaixonada pelo pai, deseja a parecênça como a mãe.

Não desenvolve o seu potencial; antes, dedica-se a "colecionar" conhecimentos (informações), na convicção de que assim conseguirá visibilidade entre os seus (talvez realizar o desejo de tornar-se um caroço de romã).

Os desejos reprimidos, sendo um deles o de tornar-se “ um caroço de romã”, e assim obter aceitação, reconhecimento e identificação com a sua "tribo", vão produzir através do recalque, a manifestação de diversas neuroses.

As cantigas infantis monocórdias, construções fantásticas e pacificadoras do espírito humano, repetidas ao longo dos eventos descritos, evidenciam a necessidade de superar a sensação de queda no vazio, de fragmentação do self, o que decorre não só do complexo de rejeição , ponto crucial revelado nas primeiras palavras da mãe, quando, grávida, segundo afirma, 'teve a criança rejeitada pelo pai'.(Mensagem bruxa)


Da ambivalência surge o primeiro fantasma: o pai que escolhe um nome de rainha para a filha posteriormente rejeitada.

A mãe, que aparece sempre às voltas com o filho caçula, é a figura idealizada com a qual ela deseja parecer-se, cujo lugar lhe apetece por ser garantia da conquista do amor paterno e do espaço de prestígio naquela família.

Deseja também assumir-se como protetora daquele “filho caçula” sempre incensado e, desse modo, quem sabe, se apoderar do falo faltante para escapar da fantasia de castração (e quiçá se apropriar do suposto poder da “mãe castradora”).

A mãe demonstra desinteresse pelo pai, sinaliza que o lugar de consorte estaria vago e introduz a figura paterna com acentuado desvalor na constelação familiar, para a qual a trilogia do Complexo de Édipo traz uma quarta personagem catalisadora: o caçula que, entretanto, na descrição que lhe faz a irmã é sempre objeto e jamais sujeito na dinâmica familiar. Na casa em que "reina a rainha", segundo palavras da garota, o cetro real é personificado por este menino-objeto, fonte do poder e realização da mãe má.

O texto se divide em três partes:


1) a garota narra a história na primeira pessoa, balizada por seus afetos e mecanismos de defesa;

2) produz questionamentos e traça considerações unilaterais (a história se desenrola no universo imaginário);

3) como observadora, postada a uma distância que (supostamente) permita isenção, procura apenas descrever as experiências de medo, abandono, rejeição, desamparo e morte vivenciadas por uma adolescente sob o jugo dos instintos e em trânsito para a inserção cultural.


Assim como na saga de Édipo, mesmo com "pés inchados", o caminhar para Tebas é compulsório. A superação da história funesta poderia ter se realizado, talvez, com um pouco do humor e das cores utilizadas por Offenbach em suas leituras musicais dos mitos gregos. O texto é contido, sintético e sem grand finalle.


O caso exibe aparentemente duas realidades, dois pontos de vista, não divergentes mas levemente distorcidos pelo fluxo do sofrimento psíquico. A terceira parte de que o texto se constitui é aparentemente pouco significativa. Enlaça com tons de fantasia as pulsões espalhadas pelos parágrafos; amarra com laços, nunca com nós, a convicção da garota de que através de palavras mágicas é possível apagar eventos para que não continuem “acontecendo na mente e ferindo no corpo”.

As cantigas infantis surgem como condão para acesso ao mundo mágico, igualmente adverso e ameaçador, um recurso dolente para alinhavar a paz interior. São como a prece que se faz guiando-se pelas contas de um terço e que se pode continuar rezando sempre, em círculos, sem parar, obsessivamente, em infinito movimento urobórico.

As cantigas parecem aliviar sua angústia. A palavra, oral ou escrita, permite ao inconsciente produzir a auto-cura através da manifestação e decodificação simbólica de seus conteúdos.

É perceptível um movimento pendular significativo na forma e no ritmo com que elabora o texto. Rezar e cantar; a díade mágica pontua o ritual através do qual ela procura afastar assombrações.


Laplanche, Jean
Vocabulário da psicanálise/Laplanche e Pontalis; sob a direção de Daniel Lagache; tradução Pedro Tamen. - 4ª. ed.- São Paulo: Martins Fontes, 2001.
Fenichel, Otto
Teoria psicanalítica das neuroses / Otto Fenichel; tradução Samuel Penna Reis; revisão terminológica e conceitual Ricardo Fabião Gomes.- São Paulo: Editora Atheneu, 2004.

Complexo de Édipo - caso real

A GAROTA SARAIVA





“Frustrar alguém no amor é a mais terrível decepção;
é uma perda eterna para a qual não há
compensação na vida ou na eternidade.”
(Kierkegaard)





Lembro-me do dente colocado embaixo do travesseiro. Ouço ainda meu grito de alegria ao encontrar a moeda que a fada azul deixou para mim no lugar daquele precioso dente de leite.

“... com Deus me deito, com Deus me levanto...”

Conta minha mãe que papai encantou-se tanto com o meu nascimento que escolheu para mim um nome de rainha e, no dia exato em que nasci, 12 de outubro, dia da criança, comprou o mais lindo enxoval cor-de-rosa e inundou o quarto do hospital com laços, rendas e fitas e muitos sorrisos de felicidade pela chegada da filha primogênita.

Minha mãe também sempre dizia:

“Nem parecia o mesmo homem que, ao saber da gravidez, encheu-se de ira, rejeitou a mim e a criança. Era sempre assim, não podia me ver grávida que mudava da água para o vinho.”

Dois anos após o meu nascimento nasceu outro menino e morreu aos seis meses. Logo após nasceu outro menino, que vingou, substituindo o primeiro. Mas eu permaneci a filha dileta porque tinha muita parecença com meu pai, tipo físico, habilidades, jeitos peculiares... o que vim a descobrir ao longo da vida.

“ Ela é a cara do pai.” repetia minha mãe, o que me agradava, embora desejasse ser também como ela, bela e comunicativa. “Meninos são mais parecidos com a mãe. Meu marido é muito inteligente, mas antipático, não sabe se comunicar com as pessoas.” Acrescentava ainda: “ Na minha família somos diferentes: alegres, sociáveis, bem humorados.” Eu desejava ser também alegre e bem humorada como ela.

O que sabe sobre si mesma? Atravessou momentos contundentes em sua vida, erupções recorrentes que, embora devastadoras, produziam uma dor difusa, mas que doía muito e o tempo todo. Ela reagia para jamais se acostumar com aquela dor. Muitos aluviões ficaram presos em sua história, ao mesmo tempo em que partes de si mesma foram arrancadas pelo vento forte demais ou pela exigência de desejos que não eram os seus. O que restou, inacreditavelmente, se transformou em tecido depurado, embora com alguns buracos. Algo como o tule de náilon que algumas noivas exibem em seus casquetes. Há também as latinhas, (iguais àquelas arrastadas pelos carros dos recém-casados) que fazem um barulho insuportável, as quais, infelizmente, quase se acostumou em arrastar.



“O que eu quero para mim?”


Tem por hábito elaborar pequenos rituais para afugentar os fantasmas da sujeição e procura encontrar nela mesma um meio de desatar esse nó fincado bem no meio do seu sossego. Na tentativa de desviar-se de emoções oportunistas trazidas pela angústia, procura uma forma de explicação para as suas inquietações, que seja asséptica e indolor, já que, definitivamente, não quer experimentar sofrimento, mas quer descobrir a verdade, seja lá o que for a verdade.


Antes, o que é a realidade? Ela sempre se acreditou uma garota sensata, apesar da sua luta contínua entre ilusão e realidade para descobrir em que momento do tempo repousa a menina do enxoval cor-de-rosa. Em que momento ela se transformou em filha e passou a externar as características de criança adaptada? Teriam seu comportamento, gestos e desejos se formado a partir de um suposto gancho cultural, na verdade um viés normativo para o pleno exercício do poder do outro?


“Sou o que penso que sou?”


Esta pergunta tem sido o agente provocador da sua história, o norte na busca de uma convicção sobre si mesma; convicção que seja decorrente de íntimas questões antitéticas, contraditórias, intercambiantes .... mas que possa produzir a ferramenta adequada para abrandar a dor de ser o que lhe dizem para ser. Dor que não quer mais. Servem-lhe apenas as dores decorrentes da trajetória do herói, estas se dispõe a experimentar, porque serão resultado de alguma autonomia, de sua ousadia e, claro, de um pouco do desígnio dos deuses, porque esses, estarão sempre em volta para dar palpites. Ela quer participar da elaboração do roteiro da própria vida; livre arbítrio, lhe parece, é transcender a determinação de ser mortal. Seja qual for o caminho, embora Cloto e Átropos sejam irredutíveis, com Láquesis sempre será possível negociar. Já está de bom tamanho essa invariância subjacente de ser mulher, branca, brasileira e míope somada a este mim onipresente, chamado inconsciente , real condutor das muitas ações que praticamos na vida.

“Por que faço o que faço?”

A dúvida traz consigo a necessidade de compreender a si mesma e ao outro, sabendo perfeitamente que outro é um universo, coletivo, contraditório e que ela pode ter se equivocado na identificação do desejo alheio.


“... cai cai balão, cai cai balão, aqui na minha mão...”


Que maravilhosa experiência , aos nove anos de idade, poder assistir ao balé O Lago dos Cisnes no Teatro Municipal de S. Paulo. Meu irmão era muito pequeno para nos acompanhar, minha mãe não se agradava de clássicos, daí fomos juntos, eu e meu pai. Recordo as luzes mágicas, o tapete vermelho, as escadarias, as pessoas vestidas com roupas de festa, falando baixo, movendo-se com vagar, elegantes nos modos e nas falas.





Os registros musicais e as luzes coloridas tiveram um efeito de mágica sobre mim principalmente quando pontuaram a entrada no palco de Odila, o cisne negro. À intensidade dos acordes juntava-se a voz sussurrante de meu pai, explicando-me baixinho cada detalhe daquela que era a sua peça favorita. Naquela noite eu me senti importante por ser merecedora da atenção do meu pai, fonte de segurança e amor.


Disse minha mãe, e muitas outras coisas dissera, na contra mão das minhas convicções, que meu pai era bruto como marido, não sociável, nem amigo nem acolhedor. Segundo ela, mais defeitos que qualidades tinha. Ainda assim era ele quem comprava nossas roupas e brinquedos e fazia bolos de fubá salpicados com sementes de erva-doce. A mim ensinara, entre muitas outras importantes lições, como dobrar o jornal sem amassar para poder ler folgadamente. Eu lia as notícias sobre política e depois nos sentávamos os dois, a mesa do café para trocar opiniões. Minha mãe detestava estes agradáveis momentos de nós dois.


Aos 12 anos li Germinal e assisti a Flor de Pedra, belíssimo filme russo premiado. Mergulhava com grande prazer no mundo intelectual descortinado por meu pai por sentir que minha facilidade em aprender o tornava orgulhoso e sabia que somente eu podia causar-lhe esta alegria já que meu irmão era pequeno demais para participar destes momentos e à mãe pouco interessavam nossas incursões culturais. Assim, desde cedo freqüentei teatros, museus, participei de eventos que naturalmente me levaram a adquirir conhecimentos incomuns para uma menina de pouca idade. Tais saberes me fascinavam e através deles eu obtinha a admiração de meu pai. Lembro-me também de que, embora não desse muita importância a nossos passeios, minha mãe tinha sempre o cuidado de me vestir adequadamente; mesmo pequena eu usava saias pregueadas, sapatos de verniz e boinas coloridas, de acordo com a formalidade necessária ao se comparecer aos concertos do Teatro Municipal de São Paulo. Muitas vezes, no retorno a casa, após um longo dia de andanças por algum museu, era trazida ao colo, sonolenta, descalça, pés inchados, como qualquer outra criança depois de uma festa.


“... boi, boi da cara preta, pega essa menina que tem medo de careta...”


Nossa família mudou-se muitas vezes, era sempre difícil pagar o aluguel, mudávamos para casas sempre menores e mais baratas, até que de São Paulo nos mudamos para Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.


O clima quente fez melhorar a saúde de todos, muito embora os conflitos entre mamãe e papai viessem a agravar-se até ao ponto em que ela decidiu separar-se .
Todavia, antes de intentar uma separação legal, resolveu fugir de casa, levando na mão direita apenas uma mala, e o filho caçula pela outra mão. Por obra do acaso ou de alguma Moira muito atenta, chegava eu mais cedo da escola quando dei de encontro com os fujões.

“Onde vão?”



“Às compras.”


“Vou junto!”





Ela tentou dissuadir-me; em vão. Pressentí o perigo, o vazio, o rompimento, o abandono, enfim, todos os vagões assombrados puxados por aquela maria-fumaça que constituía a minha família; nós quatro vivendo juntos e ao mesmo tempo separados pelos nossos interesses contraditórios e afetos estanques; tão pouco sabíamos uns dos outros ...

Com a roupa do corpo, um vestido branco bordado de joaninhas vermelhas, me lembro bem, sem mala nem esperança, lá fui eu atrás daquele par que não me reconhecia como parte de suas vidas e que também não se agradava de minha companhia. Mesmo assim, fui junto. Mãe e filho tinham sido sempre como sementes de romã, grudadinhos, indispensáveis um ao outro como pulmão e oxigênio, ele nascera como que para compensá-la da morte do primeiro filho. Eu tentava compreende-los, mas na verdade não compreendia, e experimentava ciúmes por não participar de seus códigos. Ferida e assombrada, ainda assim fui junto realizar a fuga que não era minha e para a qual sequer fora convidada.

Ficamos dois dias em casa de parentes em São Paulo até que meu pai veio buscar-nos entre lágrimas de reprovação e queixas de intensa amargura. Como pudera eu, filha tão querida, não tê-lo avisado da fuga e, além do mais ter acompanhado a mãe no seu ato irresponsável? Conivente, não sabia o que significava até aquela hora, mas sabia que não era isso, essa palavra doía, ele não percebia? Minha mãe, ocupada com suas próprias dores, nada disse na noite daquele reencontro, nem nas outras noites que se seguiram depois que voltamos para nossa casa. Senti uma grande vontade de ir embora, mas não sabia para onde, então não fui.

A família se reuniu feito um cacho de uvas, cada qual dependurado em separado no frágil cabinho, embora eu ainda identificasse minha mãe e meu irmão como caroços de romã, sempre agarradinhos.


“ ... Nosce te ipsum..” Conhece a ti mesmo

Montanhas parecem pontes que permitem acesso aos deuses; lá de cima eles espiam os humanos, provocam mudanças em suas vidas, interferem em seus arbítrios, mas são apenas figuras míticas que pedem para ser decifradas, trazidas à luz e corajosamente confrontadas – e isto a garota não aprendeu nos livros que leu, mas nos contos que viveu. Fadas, como as bruxas, usam chapéu em formato de cone, usam varinhas, voam, proferem vaticínios, preparam poções e aspergem pozinhos mágicos... A garota está a procura de compreender esta parte de viagem rumo ao seu mito pessoal, livre dos parâmetros daquele pai soberano, cujo código normativo resta gravado nela mesma, ele que ainda hoje parece pedir para que ela seja a personagem que ele idealizou. Desejo dele, ao qual ela dedicou o maior empenho em corresponder. Se os homens criaram os deuses para abrandar a própria angústia acabaram angustiados por se virem controlados pelos deuses que criaram. Contraditório, por isso mesmo, humano.



Quer repassar os seus atos, reconsiderar os fatos vividos e, principalmente substituir o pensamento pela espontânea emoção e deixar brotarem as palavras, e, através das palavras, expressar a sutileza da verdade que, lhe parece, não é mais que um volátil fonema na sutil marcação de uma diferença quase imperceptível mas definitivamente contrastante como ocorre, por exemplo na frase: de fato há um gato no mato. Sem dúvida, fonemas são como duendes brincalhões, escondem coisas, exibem outras coisas, mudam as coisas de lugar só para nos fazer correr atrás.


Brincava com as palavras: saudade, sal, idade, amor, romã, mãe, pão, sustento, suporte, pai, vai, sai, cai, daí?


Meu pai era o rei naquela casa, embora mamãe reinasse efetivamente, porque ela tinha emprego quase sempre e o pai eventualmente ; eu entendia que quem tem o dinheiro tem o poder, portanto parecia justo que as ordens viessem através da rainha. Mas não, não parecia justo, tanto que estes procedimentos me causavam uma mistura de inveja, raiva, muita zanga e pouco amor. Neste caldo cozinhava meus medos e como defesa investia minhas energias nos estudos, crente que boas notas escolares me fariam merecedora do afeto, respeito e consideração daqueles que tanto amava e que às vezes também odiava. Nesta fase eu muito desejava ser um caroço de romã.


“... ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar...”


Passados cinquenta anos continuamos unidos por um dogma estático, reafirmando a ideação fantástica de que o outro é o inferno; minha velha mãe, senhora respeitável, declama versos bíblicos aos ouvidos indiferentes dos familiares mais jovens, o filho caçula, hoje advogado, desfruta os louros da alta posição social e a professora de Filosofia continua às voltas com livros e alunos, garimpando explicações para a inquietação existencial do ser humano, que sempre deseja, mas nem sempre sabe o que quer. Meu pai faleceu há alguns anos, mas isso é fato, e fatos não compõe a história do cacho de uvas, nem da romã. Nossa história presente não traz fatos, nem identifica responsabilidades, mas denuncia a defesa incondicional que fazemos de nossas convicções e a negação sistemática dos movimentos mesquinhos que realizamos ininterruptamente ao longo de nossas vidas, separados no amor, mas entrelaçados pelas Eríneas, indiferentes ao fato de que o Amor, a Tristeza, o Ódio, a Raiva e o Ciúme são irmãos, nascidos no mesmo instante do esperma de Urano. Dissimulados, refugiados dentro das fatiotas sociais , tentamos em vão ocultar a feiúra das nossas humanas emoções exacerbadas e dedicamos a maior parte do tempo a alardear as nossas verdades e a lançar sobre o outro toda a sorte de acusações.

“... atirei o pau no gato mas o gato não morreu ...”

Fomos deixados por um tempo em casa de parentes, dada a difícil situação financeira da família. Éramos bem alimentados, brincávamos, disputávamos tudo o que de bom havia na casa dos parentes, inclusive o amor quentinho da tia, apesar da saudade de papai e mamãe. Doía também ouvir do tio: “É sempre assim. O chopim põe os ovos no ninho do tico-tico e ele que se vire pra criar.” Eu e meu irmão sabíamos quem eram os filhotes de chopim mas isso não tirava o nosso apetite.



A garota sentia necessidade de pertencer a alguém, a algum lugar. Havia primeiramente a vontade, quase um instinto, de sobreviver por si e de existir para si mesma, ser ao mesmo tempo o barro e o oleiro; moldar-se, elaborar um destino próprio na medida do possível, e, por que não, à essa altura dos acontecimentos, extrair de si mesma o que de mais precioso tinha, verdes sementes de amor, em qualquer medida, na medida do impossível até. O amor da mãe, não percebido pela filha, provavelmente estava lá, atávico, entalhado no totem familiar.


Após o preparo de um ano entre orações, leituras da Bíblia, jejuns e confissões de pecados que sequer praticara, a garota habilitou-se ao ritual da primeira comunhão, direito de usar vestido branco e de incorporar um renascimento às avessas.


A mãe usara suas economias para comprar o vestido branco, bem mais simples que o modelo indicado pelas freiras, poucos bordados, nenhuma renda e para a cabeça o casquete mais barato. Ao invés de véu de seda, um tule grosseiro que pinicava a face ao lhe roçar, detalhe que não passou despercebido pelas outras meninas, uma delas de imediato partindo para o deboche:

“ Esse véu furado mais parece um mosqueteiro.”


A garota, na imediata resposta, ergueu a vela que segurava e a quebrou na cabeça daquela que debochava. Restou-lhe ainda a humilhação de, durante toda a cerimônia, equilibrar a vela quebrada, presa agora apenas por um barbante, e que a cada passo seu, caía de lado, como se imitasse um insuportável desmaio.


“... Deus, ondes estás? Será que também te escondes? ...”


As crises entre o casal cresciam em número e intensidade. Para a mãe, fugir não fazia mais sentido, era preciso formalizar a separação: o desquite era inescapável. O pai, desempregado outra vez, destituído de poder, exaurido na sua posição de chefe daquela família, agarrou-se
aos filhos como únicos e derradeiros suportes de sua vida naufragada. A garota sabia que o pai sofria muito diante da possibilidade de separação; sofria ela também por ele e por si mesma, pois entendia que ela e o irmão eram partes vulneráveis neste desenlace. O que seria dos chopins? Despossuídos de um lar, de responsáveis capazes de ocupar-se com suas crias, as duas crianças eram não mais que testemunhas de duelos vazios em que as partes se agrediam mutuamente na ânsia de provar cada um as suas razões, exigindo contemplar a sua interpretação como verdadeira.

“ ... o cravo brigou com a rosa ...”


Eu adorava ir à praia; sol, calor, luz, alegria. Mas não naquela noite, quando meu pai nos levou para a beira da praia; fazia frio, estava escuro e eu sentia medo. Acho que meu irmão também sentia. Eu estava com 13 anos, tirava boas notas na escola e tinha muita vontade de ser feliz.
Meu pai sentou-se ao nosso lado no banco da praia de Copacabana, pegou na minha mão e olhou nos meus olhos assustados com os seus olhos tristes e o peso daquele olhar suplicante caiu sobre mim como uma avalanche de pedras:



“Você é a mais velha. Você tem que convencer sua mãe a mudar de idéia. Não podemos separar a família. Fale com ela. Faça com que desista da separação.”


A maré estava na vazante e ia levando com ela as lágrimas dos olhos verdes do meu pai querido e as minhas lágrimas salgadas que escorriam sem eu nem bem compreender porque. Até que se derramou a frase inesquecível:



“Se ela não mudar de idéia vou dar guaraná com veneno para vocês dois e depois vou tomar também.”


As luzes dos prédio em frente ao mar, o doce sabor do guaraná tantas vezes experimentado, o gosto amargo do fracasso trazido para ela, o não perceber pelo pai que aquela responsabilidade colocada sobre os ombros da garota era fardo insuportável e que não lhe pertencia.


“Cabe a você resolver este problema. Posso falar com ela, mas não sei se posso convencê-la. O guaraná ... eu não vou beber. Nem vou deixar você dar para meu irmão .”


Ainda estão lá em frente à praia um homem e duas crianças, congelados em um tempo que não flui jamais. Eles não mais se movem, mas não param de sofrer.


Nesta noite a garota com nome de rainha foi esvaziada de suas últimas esperanças e a família dividiu-se, posto que já dividida estava; o pai mudou-se para outra cidade levando nos braços seu filho agora predileto e a garota, sabe-se lá porque, ficou com a mãe no mesmo apartamento, na mesma cidade. Foi uma divisão arbitrária, mero truque de duendes perversos, pois a partir daí todos migraram para insuportáveis terras geladas e sombrias.


Nunca mais nos olhamos nos olhos, meu pai e eu, nunca mais nós quatro deixamos de culpar uns aos outros, nunca mais nos permitimos a paz. As águas do mar tornaram-se amargas para mim; minha mãe lamentava a ausência do filho querido, meu pai ocupava a infância de meu irmão com as suas verdades e, tendo este filho pequeno como forte vínculo entre o casal, de certa forma reconstruíram seus afetos e tentaram satisfazer suas necessidades. De minha parte procurei construir a família que idealizei exemplar. Casei, tive filhos, descasei, procurei por mim mesma entre aqueles que amei sem perceber que estava à procura de alguém que me explicasse o balé, me colocasse no colo e que prometesse me amar para sempre. Para tanto, fui disciplinada, trabalhadeira e estudiosa e, tanto desejei acertar, que me tornei rígida e controladora. Quase sempre tirei nota 10 mas quando terminava a prova via que todos os outros alunos já estavam no pátio do recreio.



“ ... nana nenê que a cuca vem pegar...”


Depois de alguns anos morando em São Paulo meu pai casou-se outra vez e mudou-se para lugar incerto e não sabido, com devida exceção para o filho, que o visitava regularmente. Segredos às vezes são mal guardados ou intencionalmente ventilados. Enfim, alguém disse que talvez morasse em alguma pequena cidade no interior de Goiás. Nada mais. Para mim, estes movimentos sinalizavam recorrente abandono, uma sentença de banimento sempre reiterada.



Certa manhã de nem sei quando meu filho telefonou avisando:

“O vô morreu.”

“Morreu como, onde? O que aconteceu?”

“Um acidente, parece, quando passeava de barco em Ubatuba.”

“E o que mais?”

“Mais nada. O enterro foi em São Paulo, mas quando eu cheguei ao cemitério todos já tinham ido embora. Inclusive meu tio.”

Assim morreu Moacyr outra vez, abraçado com seu desgosto, velado por seu único filho e por sua viúva jovem.


Não me lembro de ter chorado, apenas quedei-me encantada na varanda da casa, os olhos sombreados pela boina vermelha, cansada e sonolenta como criança à espera de colo. Lembrei-me dos cisnes de Tchaikowisky, cujo canto é derradeiro, véspera da morte, assim como dos olhos verdes, perdidos no tempo, e que agora ressurgiam por breve instante, apenas para reafirmar a recusa de um perdão que eu tanto busquei, mas que não reparei, dele não precisava a minha inocência. Estranho êxtase esse da morte sabida mas não reverenciada, pela falta de um corpo presente a ser velado; funeral simbólico de alguém que morreu e com ele levou algo de mim que também morreu e, por eu ser ninguém diante deste pai agora definitivamente ausente, talvez possa enfim gozar a redenção de ser eu mesma.


“ ... o balão vai subindo, vai caindo a garoa ...”


Se meu pai deixou bens, isso também não sei. Mas se me fosse dado escolher uma peça de herança sua pediria o livro que ele escreveu e jamais publicou: O Garoto Saraiva, sua biografia de menino órfão criado em colégio interno, educado para ser padre mas conquistado pelo amor da mulher que lhe deu uma filha para quem ele escolheu um nome de rainha.


“... uni, duni, tê ... salamê, minguê ... ”

13 de mai de 2010

SÍNDROME DO PÂNICO - O mito se mostra verdadeiro quando você experimenta a transformação.

O Mito


Há várias versões para o mito do deus grego Pan.

Segundo uma delas, o deus Pan é filho de Zeus com sua ama de leite, a cabra Amaltéia.

Pan é um deus de forte libido, primitivo e natural. Tem torso e cabeça humanos; pernas, chifres e orelhas de bode. Deus fálico, mas também músico sensível, galanteador, seduzia as ninfas dos bosques, não pela beleza, que não a tinha, mas com belas palavras e boa música.

Pan, na mitologia grega, é o deus dos bosques, dos rebanhos e dos pastores.

Morava em grutas e passava os dias correndo atrás das ninfas. Os pastores se assustavam com os ruídos provocados por ele e com a sua figura assustadora; daí o nome pânico para medo súbito e imotivado, uma vez que Pan não causava dano algum aos pastores ou aos viajantes que costumavam atravessar a floresta.

A palavra pânico deriva desse deus, metade homem, metade bode, porque causava, com sua correrias, medo repentino (irracional) naqueles que precisavam adentrar seu território.

Pan queria apenas divertir-se, correr atrás das ninfas e tocar sua flauta.

A flauta de Pan


Diz a lenda que Pan apaixonou-se pela belíssima ninfa Syrinx, mas que teve seu amor rejeitado por ela.

Syrinx fugiu da feia criatura e foi pedir ajuda às náiades, as ninfas dos rios, que imediatamente a transformaram em uma discreta moita de bambus.

Pan perseguiu Syrinx até as margens do rio e quando supõe agarrá-la, abraça apenas os bambus e ouve somente os sons produzidos pelo vento a soprar através das partes ocas da planta.

Pan encanta-se com aqueles sons; corta alguns bambus em tamanhos diferentes e inventa a flauta à qual dá o nome de Syrinx, em homenagem à amada, e que mais tarde será chamada flauta de Pan em honra ao deus apaixonado.

Sob a feiúra do deus Pan se oculta um coração sensível, capaz, não só, de atos primitivos como a perseguição às ninfas, mas também de gestos românticos como prestar homenagem à amada inacessível.

12 de mai de 2010

Porta D'água - Poemas e fragmentos do livro NUA

Panta Rei - (tudo flui)

Depois que a gente vive um bocadinho
Aprende lento, bem devagarinho
Quanta surpresa rude a vida traz

Descobre entre a alegria e o devaneio
Decepções que vêm se fazer meio
De nos doer na alma e nos roubar a paz

Depois que a gente vê e vive o sofrimento
A gente cresce e vê o mundo diferente
Como se fora a partir de tal momento
Um outro mundo
E neste mundo
Uma outra gente.