11 de jul de 2010

Casamento: a história de Elisabete, a rainha do lar

Ela entra no quarto trazendo a xícara de café, percebe que ele está dormindo e fica por alguns segundos a admirar este seu homem moreno e cabeludo. O movimento do tórax largo e bronzeado mostra a respiração tranquila e os músculos, mesmo relaxados, denunciam a força de um corpo saudável, cuidado com boa alimentação e exercícios físicos que ele não dispensa.

Ela muito se orgulha dele, da sua inteligência aguda, da sua capacidade de discernimento, seu poder de expressar-se com rara propriedade. Ela reconhece nele todas as qualidades que não encontra em si mesma. Juntos formam um doze: ele vale dez pontos, farto de adjetivos, todos analisados cuidadosamente por ela. Como ela ama seu homem moreno, tão belo e tão seu!

Na quinta-feira, depois que ele sai, vestindo terno impecável, Elisabete prepara-se para ir às compras. Ajeita os óculos sobre o nariz pequeno, calça confortável tênis e veste a velha calça jeans que tão bem disfarça a largura de seus fartos quadris. Prende os cabelos com presilhas plásticas, apanha a lista de compras e parte satisfeita para o supermercado.

Hoje é dia de comprar queijos, salgadinhos e cerveja para o programa de fim de semana, quando devem receber alguns amigos para jogar buraco. Raramente saem para ir ao cinema, mas, o que fazer dependerá exclusivamente da vontade dela. O que ela preferir, ele fará com o maior prazer, porque a ama e a sexta-feira é toda dela. Elisabete considera se uma mulher de sorte.

Ela sente-se muito feliz em razão do carinho que ele lhe dedica e dos mimos que lhe faz. Por outro lado, ela se assume como viga mestra da casa, tomando ao colo seu menininho sempre que algo sério o aborrece no trabalho ou algum outro tipo de problema lhe acontece ou quando a insônia o molesta ou ainda quando, durante o jogo de futebol, um adversário tranqueira lhe chuta as canelas.

Tomam café juntos todas as manhãs, aproveitando para discorrer sobre amenidades: um ou outro tópico da atualidade, uma ou outra fofoca sobre celebridades ... O bastante para que ela reconheça o quanto ele é bem informado e sabe transmitir lhe com clara visão uma síntese do panorama político e cultural do país.

Ela se tem por mulher de firmes convicções, já leu alguma coisa sobre o direito de acesso à informação por parte das mulheres. Tanto que, na próxima eleição vai votar em uma mulher, qualquer uma delas.

Entende um pouco de planejamento familiar, assim como o Papa ela é contra os métodos anticoncepcionais não naturais e inteiramente a favor da moral cristã. É contra o aborto, o divórcio, a pílula, os preservativos e os gays.

Acredita que hoje em dia as mulheres estão se desvalorizando demais, aproveitando sua liberdade para dar pra qualquer um.

Terminadas as compras no supermercado aporta seu carrinho em frente ao caixa e saca com rapidez e habilidade o seu talão de cheques.

Após escrever por extenso a cifra total, apõe com prazer sua bem desenhada assinatura na linha inferior. Anota o valor no canhoto mas não faz a dedução.

Do seu talão de conta conjunta não consta o saldo atual porque é ele quem controla a movimentação; a ela cabe apenas gastar.

O que mais uma vez demonstra o cuidado dele para com ela. Cálculos, ele os faz. Cuidar do lar já dá a ela tanto com que pensar que seria abuso da parte dele acumular sua mulherzinha com desnecessárias tarefas.

Ele sempre pensa nela em se tratando de dividir responsabilidades. Elisabete curte horrores o barato de ser bem casada e dar sempre para um homem só!

Sai do supermercado e retorna ao seu castelo doméstico sem maiores preocupações.

Aos sábados ela acompanha seu ídolo ao campo de futebol, onde irá exibir a perícia de grande jogador, surpreendendo com sua velocidade e presteza nos arremates, matando a bola no peito, disparando fortes tiros, marcando gols.

Se acontecer dele ser expulso de campo por algum juiz ladrão, Elisabete erguerá o queixo contrariada, despejando palavras rudes de defesa convicta a favor de seu atleta injustiçado.

Porém, ela prefere ao esporte das manhãs de sábado os saraus musicais das tardes de domingo, quando, ao invés da bola, seu ídolo versátil encanta mais uma vez e surpreende a todos ao tocar cintilante bateria.

Elisabete senta se confortavelmente ao lado de seu copo de refrigerante e entrega se ao mister de admirar extasiada seu homem moreno a enfrentar com maestria os címbalos e os taróis.

Seus íntimos sonhos, produtos inconscientes da distante adolescência, manifestam se impetuosamente e ela reencontra o príncipe encantado: alto, charmoso e elegante, catalizador das mais ricas qualidades que só os jogadores profissionais de futebol nos anúncios de produtos esportivos são capazes de destacar.

Ela suspira diante do astro resplandencente. Como a lua diante do sol ela mesma se ilumina e enriquece, num misterioso ato de pura alquimia.

Neste sublime instante pontuado pelo hierosgamos (o casamento sagrado), enquanto ele vibra os metais e fere os tambores vigorosamente, ela enfim compreende que o Dr. Eic Berne está certíssimo quando diz: você está OK, eu estou OK!

Elisabete sente se próxima ao nirvana. Porém, percebdendo que outras mulheres da platéia também se excitam diante do talentoso músico, passa a agitar sua mão esquerda para que todas compreendam, vendo o faiscante brilho de sua aliança, que ela é a única dona do belo astro, fonte dos seus prazeres e da sua realização.

Outros dias passam como um trenzinho que passa. Puííí ... piuííí ...

A vida segue e Elisabete viaja na vida sem sair do seu lar, protegida e amada pelo seu homem forte. Raras mulheres são felizes como ela, plenamente satisfeita em todas as suas necessidades, guardada dos perigos de um mundo de trabalhos exaustivos, de sofismas e de enigmas atordoantes.

Para que escalar montanhas se Elisabete já há muito jogou fora a bandeira que poderia fincar no topo?

Tudo o que lhe importa é sentir se amada e protegida. Para sempre.

O trenzinho segue sem parar, apitando: Piuííí ... piuííí ...

Nele seguem Elisabete e seu homem forte rumo a um futuro desconhecido e imprevisível. Mas, para ela, o importante é o agora, onde ela desfila contente, com manto e coroa, de braço dado com o seu namorado.

Piuííí...??

***


Esta história pode ser considerada um conto de fadas, e, como tal, cheia de alegorias, mas exatamente por isso, existir no imaginário de muitas mulheres ativas e inteligentes.

6 de jul de 2010

Casamento: opção, condição ou ilusão?

Algumas mulheres desejam casar se, outras não. Porém, vestidos de noiva, buquês, igreja e alianças fazem parte do imaginário feminino.

Algumas delas ingressam na nave matrimonial inebriadas por fantasias primordiais e acabam enredadas nas supostas regras de bom comportamento para esposas, concubinas e afins; regras que, mesmo sem que as mulheres percebam, são introjetadas, atuando no espaço familiar, onde o triângulo básico: marido, esposa e, quase sempre, filho, irá atuar conforme o tom de inevitabilidade determinado pelos mitos. Para equilibrar ou, definitivamente, desestabilizar a dinâmica, poderá surgir a força complementar do quadrado: o amante.

O que você estaria disposta a fazer para manter e/ou salvar seu casamento?

Aqui não vamos entrar em detalhes sobre o que se entende por casamento, tal a flexibilidade da relação matrimonial nos dias de hoje e também pelo alto nível das exceções contratuais nela consideradas.

O que você vai ler são pequenos contos alegóricos sobre algumas mulheres casadas, comprometidas, cada qual de uma forma singular, com seu projeto matrimonial, o que não significa exatamente aí incluir a consulta da contraparte igualmente interessada (o marido) sobre os desejos e expectativas dele quanto à vida matrimonial de ambos.

Leia e faça sua reflexão. São pequenas histórias bem humoradas.

1 de jul de 2010

Pânico 6 - Viagem ao centro de si mesmo

O ressentimento pelo abandono afetivo, real ou simbólico, é uma das causas da ferida que o fóbico, na sua construção imaginária de não ser "bom o suficiente" para merecer os suprimentos afetivos essenciais e por, equivocadamente, buscar conquistá-los através do perfeccionismo e da auto-exigência, negando seus instintos e afastando-se de si mesmo, acaba por não permitir que seja curada, mas antes, permite que ressurja na desrealização do evento do pânico.

Não é o mundo lá fora que assusta, mas o mundo aqui dentro, fragmentado e desconectado do ser interior; a falta de domínio sobre si mesmo e a desconsideração da capacidade da mente para enfrentar as aflições da vida através de um diálogo interior significativo, baseado em raciocínio e intuição, este sim capaz de orientar para a compreensão e administração do mundo "lá fora", e principalmente para o reconhecimento e a identificação de si mesmo.

Pã, tão feio, primitivo e instintual, rejeitado com horror pela sua mãe, a ninfa Dríope, reaparece para assustar aqueles que têm medo de si mesmos porque reprimem a vida instintual e perdem o contato essencial com seu centro.

Para se viver uma vida plena torna-se necessário saber realmente quem se é; descobrir seu centro e retornar para ele. Trata-se de um processo: identificar, confrontar, re-significar e integrar.

Viagem ao centro de si mesmo: recuperando o contato perdido.

A partir de agora descrevo algumas ações que podem ser conscientemente dirigidas para se entender e controlar as crises de pânico. Antes, visite neste blog: Mandala, o círculo mágico.

1. A Mandala

Mandalas são símbolos que brotam do interior da mente.

"Jung, pela experiência pessoal e pelo seu trabalho junto aos pacientes, observou o mesmo motivo de mandalas surgindo espontaneamente quando a psique estava em processo de reintegração em seguida a momentos de desequilíbrio. (...) Jung viu que em seus pacientes esquizofrênicos, 'os símbolos de mandalas aparecem com frequência em momentos de desorientação psíquica, como fatores compensadores da ordem.' ( ...) Concluiu ele que a mandala é um arquétipo da ordem, da integração e da plenitude psíquica, surgindo como esforço natural de autocura."
(Moacanin, Radmila. A Psicologia de Jung e o Budismo Tibetano. Ed. Cultrix/Pensamento, 1986)

O evento fóbico é um movimento de dispersão da mente, um momento de desorientação, conforme lemos acima, e que carece de reorganização das energias psíquicas.

Ao desenhar mandalas, conscientemente orientadas, é possível produzir resultados como: reencontro com o centro nuclear (eutimia), (re)equilíbrio emocional, fortalecimento da mente através do autoconhecimento (identificação dos seus pontos vulneráveis, complexos, etc), abrandamento dos eventos fóbicos e até mesmo a desejada dissolução da fobia.

Finalidade de desenhar mandalas conscientemente orientadas: produzir alterações benéficas na mente e no comportamento, experimentar sentimentos e emoções de qualidade superior.

As mandalas se originam no inconsciente coletivo e por isso mesmo quando desenhamos mandalas conscientemente orientadas remetemos à sua fonte originária padrões de ajustamento, organização, transformação, interação e integração, entre outros.

1º Passo: desenhar uma mandala espontânea.

Material: papel sulfite, lápis preto e lápis de cor.

Procure uma ambiente calmo onde possa ficar sozinho para fazer o exercício.

Respire fundo, solte o ar devagar. Relaxe. Repita 3 vezes.

Desenhe um círculo a lápis sobre papel sulfite.

Dentro deste círculo desenhe livremente o que lhe vier à cabeça. Use lápis preto ou lápis de cor para desenhar, à sua escolha.

Deixe se guiar pela intuição; você pode escolher desenhar apenas dentro do círculo ou extrapolar as margens, etc. Este é o seu desenho, faça como sentir que deve fazer.

Ao terminar, respire novamente.

Sinta se deseja acrescentar alguma coisa. Mas não apague nem faça qualquer correção.

Admire seu desenho: ele é a manifestação visível de uma verdade invisível.
(A seguir, próximo passo.)