20 de mai de 2010

Você tem medo de quê?

Depoimento: Ano 1980; dona de casa, 32 anos, casada, dois filhos.

“Vivi a primeira experiência com o medo repentino, ainda não conhecido como transtorno do pânico, quando fazia compras em um supermercado perto de casa.

Um terror repentino. O mais absoluto pavor se apossou de minha mente e fui arrastada por forças desconhecidas para um espaço escuro, gélido, sem contornos. Precipitei-me no vazio, sentindo algo parecido com o torpor de um desmaio, mas, curiosamente, sem perder a consciência.

Tive por certo que estava morrendo. Senti- me prestes a desaparecer, a experimentar a total dissolução da minha individualidade. Mesmo assim, assaltada pelo medo intenso, fui capaz de observar o mergulho vertiginoso do meu corpo lançado com fúria nos trilhos de uma montanha-russa virtual.

Simultaneamente, eu era o sujeito e o observador desta experiência. Eu me percebi como alguém lutando pela posse de sua razão, mas esse alguém não mais era eu. Não me reconhecia como lúcida, apesar de poder descrever com precisão, como faço agora, os eventos fantásticos que ocorriam no meu corpo e na minha mente. O medo estava dentro e fora de mim, eu sabia, mas não sabia mais quem eu era e porque sentia um medo assim avassalador.

Desespero existencial: sentir a angústia da falta de pertença, nenhum vínculo com o mundo, sequer consigo mesma; perder os contornos, tornar-se matéria difusa ... ameaçada por um poderoso inimigo oculto e aprisionada dentro da própria mente. Empreender a fuga é o primeiro comando do instinto, ineficaz, porém.


Ser nada, absolutamente nada. Aí está a maior angústia e o maior assombro: permanece a mente como observadora de si mesma enquanto paradoxalmente o corpo se desfaz e a consciência se esvai.

Como em um sonho, o ego onírico surge como única testemunha da experiência de alguém perdido nos meandros do pânico.

‘Sinto que vou morrer (escrevi em meu diário, logo após os primeiros eventos de pânico). Sinto até mesmo que morro, durante aqueles minutos eternos. Ainda assim, a dor maior não é morrer, mas testemunhar a própria morte e ali ficar, eu mesma abraçada ao meu corpo exânime, a sofrer o absurdo de uma experiência quase extra- sensorial, vivida até a última fagulha das forças’.


A sensação mais constante é a de sufocação, enquanto se cai vertiginosa e infinitamente, escorrendo não sei por onde, em direção à boca escancarada de um buraco negro sugador.


Os eventos tornaram-se constantes. Eu era então levada para o pronto socorro mais próximo e após alguns exames, prontamente liberada. Nada grave: estresse, provavelmente. Nada conclusivo também. Os sintomas, ainda que vigorosos, rapidamente se dissipavam. Nenhum dano físico ou orgânico.

Restava sempre a humilhação de voltar para casa após mais um fricote. Eu me tornara a esquisita, a doida."

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